sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Vida!

A Velhinha do Casebre


     Ainda o dia vem longe, Joaquina sai da noite para se abastecer de lenha com a qual se aquece. Chega a casa e o dia mal entrara nas janelas. Tal formiga incansável que procura trabalhar sempre que o tempo o permite, Joaquina atafulha-se de tudo que o monte dá para as longas invernias e para as amenas cavaqueiras à lareira com os amigos. É preciso estar alerta, tal soldado no seu posto e combater o inimigo que é o frio. Ao redor da casa, as muralhas de lenha erguem -se em defesa da cidadela.
    A Joaquina de Cima era uma velha idosa que se encontrava só. Vivia numa casa térrea que possuía uma cozinha escura com duas janelas viradas para a frente da casa e um quarto sem qualquer janela.
Joaquina fora a mulher mais rica e formosa das redondezas. Conta -se que garbosos homens lhe fizeram a corte, homens ricos que iam ao ponto de ferir a sua masculinidade cortando o bigode retorcido para poderem casar com Joaquina.
     Nascera na Quinta de Cima, quinta de seis caseiros e cem carros de pão. Fora educada por várias criadas e por sua mãe, senhora muito considerada em toda a região e com princípios muitos rígidos. Não pudera estudar, pois seu pai, homem que estivera muitos anos no Brasil, dizia que não precisaria de ocupar a cabeça, teria todo aquele património a gerir. Os jovens faziam-se nos campos e não nas cidades onde os males grassavam -dizia seu pai.
     Joaquina fora educada segundo velhos e duros preceitos: dar de comer a quem tem fome; ajudar os necessitados; levantar-se cedo; trabalhar para ajudar, não prejudicar quem quer que fosse e não se perder com os bens materiais.
     Vivera com um irmão até que este, após a morte dos pais, “ estourara “ toda a fortuna que pertencia a Joaquina.
     De cabeça erguida, prontamente compra um pequeno casebre, pertencendo outrora à quinta.
   J á com as suas oitenta primaveras, flor vermelha com suas pétalas gastas pelo tempo, fora uma das rosas mais belas do jardim. No meio de outras rosas, esta distinguia-se pelo seu porte, pela sua cor, pela sua tenacidade que a ligava à terra e pela facilidade em sobreviver. Ainda era patente toda aquela jovialidade que lhe ficara de criança, aquela beleza que o tempo nunca apagara. Dir-se-ia uma deusa grega na desventura da vida, todavia, face ao fado, luta com igual fervor.
   Com o Natal que se aproximava, era notório o frenesim de Joaquina. Tudo tinha de ficar pronto para a Consoada que preparava durante todo o ano com toda a minúcia. Era o ponto alto e o maior acontecimento do ano. Todos os anos, os pobres banqueteavam-se no maior festim. Todos os anos, as suas modestas poupanças eram gastas na loja do tio Zé. Nessa noite, os pobres tiravam a barriga de misérias e de risos.
    Na mesa, Joaquina prepara-se para a oração agradecendo a multiplicação do pão e do vinho e dirige-se para o presépio. O “milagre “ acontece: aos pés do Menino um presente os esperava.
Sentados em redor da mesa que ficava próxima da lareira, todos bendizem a noite com o mesmo olhar límpido tal lagoa serena.


António Sousa






sábado, 11 de outubro de 2008

A Liberdade existe?

Busca incessante

Procuro a Liberdade
Como quem procura o Santo Graal
Beduíno ao encontro de água no deserto
Após longa caminhada,
Quando pensa estar perto,
Longe está do oásis local!
Olho o firmamento
E vejo toda esta liberdade cintilante:
O sol rutilante
A gaivota que abraça o céu
Com suas asas ao vento,
O mar livre totalmente!
No entanto, esta liberdade
É limitada e pungente!
O sol pôr-se-á para reaparecer,
O mar vazará para encher,
A gaivota descerá para comer,
O Homem conquistá-la-á
Eternamente,
Como o agricultor,
Que ano após ano,
Semeia para colher!


António Sousa

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Doces paisagens minhas!

Eterno regresso


Ah, quando nasci,
Deram-me por berço
Horizontes
Cobertos de montes
Penedos tersos
Urze, mato florido
Um olival desmedido
Onde faziam fogueiras.
Veredas lajeadas
Cobertas de carvalhos velhos
E árvores fantasiadas
Pintadas de frescos verdes
Habitadas por mouras encantadas…
Tinha uma trotineta vermelha
Vinda de França,
Era um Pégaso a percorrer distâncias!
Nas asas do sonho decorreu
Toda a minha infância.
Depois, quando longe
Estive perto
Cansado, desperto,
Eras a minha Circe!
Hoje preciso de ti
Minha fonte viva

Tal mãe para o filho
Sonhando céus!

António Sousa