A Velhinha do Casebre
Ainda o dia vem longe, Joaquina sai da noite para se abastecer de lenha com a qual se aquece. Chega a casa e o dia mal entrara nas janelas. Tal formiga incansável que procura trabalhar sempre que o tempo o permite, Joaquina atafulha-se de tudo que o monte dá para as longas invernias e para as amenas cavaqueiras à lareira com os amigos. É preciso estar alerta, tal soldado no seu posto e combater o inimigo que é o frio. Ao redor da casa, as muralhas de lenha erguem -se em defesa da cidadela.
A Joaquina de Cima era uma velha idosa que se encontrava só. Vivia numa casa térrea que possuía uma cozinha escura com duas janelas viradas para a frente da casa e um quarto sem qualquer janela.
Joaquina fora a mulher mais rica e formosa das redondezas. Conta -se que garbosos homens lhe fizeram a corte, homens ricos que iam ao ponto de ferir a sua masculinidade cortando o bigode retorcido para poderem casar com Joaquina.
Nascera na Quinta de Cima, quinta de seis caseiros e cem carros de pão. Fora educada por várias criadas e por sua mãe, senhora muito considerada em toda a região e com princípios muitos rígidos. Não pudera estudar, pois seu pai, homem que estivera muitos anos no Brasil, dizia que não precisaria de ocupar a cabeça, teria todo aquele património a gerir. Os jovens faziam-se nos campos e não nas cidades onde os males grassavam -dizia seu pai.
Joaquina fora educada segundo velhos e duros preceitos: dar de comer a quem tem fome; ajudar os necessitados; levantar-se cedo; trabalhar para ajudar, não prejudicar quem quer que fosse e não se perder com os bens materiais.
Vivera com um irmão até que este, após a morte dos pais, “ estourara “ toda a fortuna que pertencia a Joaquina.
De cabeça erguida, prontamente compra um pequeno casebre, pertencendo outrora à quinta.
J á com as suas oitenta primaveras, flor vermelha com suas pétalas gastas pelo tempo, fora uma das rosas mais belas do jardim. No meio de outras rosas, esta distinguia-se pelo seu porte, pela sua cor, pela sua tenacidade que a ligava à terra e pela facilidade em sobreviver. Ainda era patente toda aquela jovialidade que lhe ficara de criança, aquela beleza que o tempo nunca apagara. Dir-se-ia uma deusa grega na desventura da vida, todavia, face ao fado, luta com igual fervor.
Com o Natal que se aproximava, era notório o frenesim de Joaquina. Tudo tinha de ficar pronto para a Consoada que preparava durante todo o ano com toda a minúcia. Era o ponto alto e o maior acontecimento do ano. Todos os anos, os pobres banqueteavam-se no maior festim. Todos os anos, as suas modestas poupanças eram gastas na loja do tio Zé. Nessa noite, os pobres tiravam a barriga de misérias e de risos.
Na mesa, Joaquina prepara-se para a oração agradecendo a multiplicação do pão e do vinho e dirige-se para o presépio. O “milagre “ acontece: aos pés do Menino um presente os esperava.
Sentados em redor da mesa que ficava próxima da lareira, todos bendizem a noite com o mesmo olhar límpido tal lagoa serena.
António Sousa
Ainda o dia vem longe, Joaquina sai da noite para se abastecer de lenha com a qual se aquece. Chega a casa e o dia mal entrara nas janelas. Tal formiga incansável que procura trabalhar sempre que o tempo o permite, Joaquina atafulha-se de tudo que o monte dá para as longas invernias e para as amenas cavaqueiras à lareira com os amigos. É preciso estar alerta, tal soldado no seu posto e combater o inimigo que é o frio. Ao redor da casa, as muralhas de lenha erguem -se em defesa da cidadela.
A Joaquina de Cima era uma velha idosa que se encontrava só. Vivia numa casa térrea que possuía uma cozinha escura com duas janelas viradas para a frente da casa e um quarto sem qualquer janela.
Joaquina fora a mulher mais rica e formosa das redondezas. Conta -se que garbosos homens lhe fizeram a corte, homens ricos que iam ao ponto de ferir a sua masculinidade cortando o bigode retorcido para poderem casar com Joaquina.
Nascera na Quinta de Cima, quinta de seis caseiros e cem carros de pão. Fora educada por várias criadas e por sua mãe, senhora muito considerada em toda a região e com princípios muitos rígidos. Não pudera estudar, pois seu pai, homem que estivera muitos anos no Brasil, dizia que não precisaria de ocupar a cabeça, teria todo aquele património a gerir. Os jovens faziam-se nos campos e não nas cidades onde os males grassavam -dizia seu pai.
Joaquina fora educada segundo velhos e duros preceitos: dar de comer a quem tem fome; ajudar os necessitados; levantar-se cedo; trabalhar para ajudar, não prejudicar quem quer que fosse e não se perder com os bens materiais.
Vivera com um irmão até que este, após a morte dos pais, “ estourara “ toda a fortuna que pertencia a Joaquina.
De cabeça erguida, prontamente compra um pequeno casebre, pertencendo outrora à quinta.
J á com as suas oitenta primaveras, flor vermelha com suas pétalas gastas pelo tempo, fora uma das rosas mais belas do jardim. No meio de outras rosas, esta distinguia-se pelo seu porte, pela sua cor, pela sua tenacidade que a ligava à terra e pela facilidade em sobreviver. Ainda era patente toda aquela jovialidade que lhe ficara de criança, aquela beleza que o tempo nunca apagara. Dir-se-ia uma deusa grega na desventura da vida, todavia, face ao fado, luta com igual fervor.
Com o Natal que se aproximava, era notório o frenesim de Joaquina. Tudo tinha de ficar pronto para a Consoada que preparava durante todo o ano com toda a minúcia. Era o ponto alto e o maior acontecimento do ano. Todos os anos, os pobres banqueteavam-se no maior festim. Todos os anos, as suas modestas poupanças eram gastas na loja do tio Zé. Nessa noite, os pobres tiravam a barriga de misérias e de risos.
Na mesa, Joaquina prepara-se para a oração agradecendo a multiplicação do pão e do vinho e dirige-se para o presépio. O “milagre “ acontece: aos pés do Menino um presente os esperava.
Sentados em redor da mesa que ficava próxima da lareira, todos bendizem a noite com o mesmo olhar límpido tal lagoa serena.
António Sousa
1 comentário:
Olá, António.
Lembrei-me de ti, não me perguntes como nem porquê. Há um ano li um dos teus contos aos meus alunos, falei-te nisso, lembras-te? E , de repente, dei comigo no teu blogue a confirmar que continuas a escrever. Parabéns! Para quando a festa da publicação? Não me digas que já foi e que esqueceste a promessa feita!
Aguardo notícias.
Beijo de amizade,
Isa
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