Pedro era um menino de dez anos, decidido e apostado sempre em vencer na vida como aquela planta que, apesar de nascer por debaixo do lajedo, irrompe com tenacidade ímpar e se torna forte e frondosa. Já no quarto ano, seguia o lema do avô, que era o seu ídolo: ” Se queres alguma coisa, luta por ela ”.
Não era alto nem baixo, tinha olhos pretos tais azeitonas e cabelos ondulados e longos. Acordava e era o sol a iluminar a casa. Era o ai-jesus daquela família, sempre bem-disposto. Mais um dia que surgisse, começava-o a plenos pulmões: era capaz de assobiar tal melro para dar as boas novas à vizinhança, ou então, acordava e logo se punha a cantarolar.
O seu dia dividia-o meticulosamente para poder realizar todas as tarefas a que se propunha e as noites eram bem dormidas, porque se deitava com a alegria do dever cumprido. Ia para a cama bem cedo, porém, não adormecia sem continuar a leitura da véspera e, às vezes, era preciso que a mãe o obrigasse a dormir, porque partia na aventura dos seus livros e esquecia-se de voltar. Ficava muitas vezes comovido a ponto de chorar copiosamente. Era um Zé do Telhado que roubava para dar aos pobres; um Dom Quixote na defesa dos mais fracos, um pobre condoído com as desgraças das suas personagens; por vezes, ria-se a bandeiras despregadas com o caricato das suas personagens e, com o fim feliz das suas histórias, esboçava um sorriso de contente. Acontecia de sonhar e de pensar que era o poeta Luís Vaz de Camões, que encontrara o seu livro perdido; ou então, imaginava-se um escritor igualando-se a Júlio Dinis, a Miguel Torga e a tantos outros.
Gostava muito de jogar no computador e fazia-o à sexta, depois do jantar e, no fim-de-semana, via na televisão os seus programas favoritos.
Na escola, era um jovem pontual, atento, estudioso, que sabia estar na sala e nunca se esquecia de estudar ou de fazer os trabalhos de casa. Os estudos eram, portanto, a sua paixão e apostava neles como em tudo. Lia os jornais, as revistas que os pais levavam para casa e, acerca de tudo, tinha a sua opinião.
Colaborava nos trabalhos domésticos, tinha um dia na semana em que ajudava a mãe a arrumar a casa, lavava a loiça na sua vez; ajudava o avô na horta, nos arrumos que eram feitos de tempos a tempos e ajudava o pai sempre que o solicitava.
Gostava muito de jogar à bola e tinha uma equipa que dava sota e ás a todas. Possuía uma bola predilecta que encontrara no sótão, era do pai. Era escura como o céu nos dias de chuva. Pedro lembrava-se de a ter encontrado cheia de pó e quando a limpou, transformou-se na mais bela, capaz de tudo fazer com ela. Lembrava-se de esta lhe ter sussurrado ao ouvido: “Se quiseres, poderás ser um campeão, basta treinares!”. Treinou, treinou e já fazia a “ volta ao mundo”, já a colocava nas costas, já dava os melhores toques na escola, já era o melhor jogador, de tal modo que os colegas ficavam boquiabertos e surpresos de tais façanhas e chamavam-lhe "o Ronaldinho".
Ao jantar, toda a família se reunia à volta da mesa. Era uma hora solene, não havia televisão nesse momento único de boa disposição, de relato das proezas do dia.
- Pedro, correu bem o teu dia? - perguntava o avô.
-Sim, avô, tive uma chamada oral a Língua Portuguesa.
-Já te preparaste para amanhã, para a ficha de Estudo do Meio? – interrogava a mãe.
- Já há dias que ando a estudar.
-Pedro, não estás a passar muito tempo com a bola? – questionava o pai.
- Pai, está tudo controlado, tenho tempo para tudo.
E assim Pedro vivia feliz, com os pais, com avô, com os amigos e com a vida!
António Sousa
Fev./2010
Não era alto nem baixo, tinha olhos pretos tais azeitonas e cabelos ondulados e longos. Acordava e era o sol a iluminar a casa. Era o ai-jesus daquela família, sempre bem-disposto. Mais um dia que surgisse, começava-o a plenos pulmões: era capaz de assobiar tal melro para dar as boas novas à vizinhança, ou então, acordava e logo se punha a cantarolar.
O seu dia dividia-o meticulosamente para poder realizar todas as tarefas a que se propunha e as noites eram bem dormidas, porque se deitava com a alegria do dever cumprido. Ia para a cama bem cedo, porém, não adormecia sem continuar a leitura da véspera e, às vezes, era preciso que a mãe o obrigasse a dormir, porque partia na aventura dos seus livros e esquecia-se de voltar. Ficava muitas vezes comovido a ponto de chorar copiosamente. Era um Zé do Telhado que roubava para dar aos pobres; um Dom Quixote na defesa dos mais fracos, um pobre condoído com as desgraças das suas personagens; por vezes, ria-se a bandeiras despregadas com o caricato das suas personagens e, com o fim feliz das suas histórias, esboçava um sorriso de contente. Acontecia de sonhar e de pensar que era o poeta Luís Vaz de Camões, que encontrara o seu livro perdido; ou então, imaginava-se um escritor igualando-se a Júlio Dinis, a Miguel Torga e a tantos outros.
Gostava muito de jogar no computador e fazia-o à sexta, depois do jantar e, no fim-de-semana, via na televisão os seus programas favoritos.
Na escola, era um jovem pontual, atento, estudioso, que sabia estar na sala e nunca se esquecia de estudar ou de fazer os trabalhos de casa. Os estudos eram, portanto, a sua paixão e apostava neles como em tudo. Lia os jornais, as revistas que os pais levavam para casa e, acerca de tudo, tinha a sua opinião.
Colaborava nos trabalhos domésticos, tinha um dia na semana em que ajudava a mãe a arrumar a casa, lavava a loiça na sua vez; ajudava o avô na horta, nos arrumos que eram feitos de tempos a tempos e ajudava o pai sempre que o solicitava.
Gostava muito de jogar à bola e tinha uma equipa que dava sota e ás a todas. Possuía uma bola predilecta que encontrara no sótão, era do pai. Era escura como o céu nos dias de chuva. Pedro lembrava-se de a ter encontrado cheia de pó e quando a limpou, transformou-se na mais bela, capaz de tudo fazer com ela. Lembrava-se de esta lhe ter sussurrado ao ouvido: “Se quiseres, poderás ser um campeão, basta treinares!”. Treinou, treinou e já fazia a “ volta ao mundo”, já a colocava nas costas, já dava os melhores toques na escola, já era o melhor jogador, de tal modo que os colegas ficavam boquiabertos e surpresos de tais façanhas e chamavam-lhe "o Ronaldinho".
Ao jantar, toda a família se reunia à volta da mesa. Era uma hora solene, não havia televisão nesse momento único de boa disposição, de relato das proezas do dia.
- Pedro, correu bem o teu dia? - perguntava o avô.
-Sim, avô, tive uma chamada oral a Língua Portuguesa.
-Já te preparaste para amanhã, para a ficha de Estudo do Meio? – interrogava a mãe.
- Já há dias que ando a estudar.
-Pedro, não estás a passar muito tempo com a bola? – questionava o pai.
- Pai, está tudo controlado, tenho tempo para tudo.
E assim Pedro vivia feliz, com os pais, com avô, com os amigos e com a vida!
António Sousa
Fev./2010
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